domingo, 4 de janeiro de 2015

Porque gosto de: Eusébio (III)





Sobre Eusébio já se escreveu tudo. Melhor do que qualquer um de nós, para contar histórias e episódios do King, estão os seus companheiros de sempre, no seu clube do coração e na selecção portuguesa. Quem marca 638 golos em 660 jogos, desses 476 golos em 445 jogos pelo Benfica, vence 5 Taças de Portugal, 11 campeonatos portugueses, uma Taça dos Campeões Europeus (e por pouco não ganhava outra), uma Liga Americana, duas Botas de Ouro, outra Bota de Ouro do Campeonato do Mundo e uma Bola de Ouro em 1966, pouco há a acrescentar. Principalmente porque sendo o Benfica uma grande equipa europeia e mundial na altura, não havia os recursos tecnológicos e médicos que hoje estão à disposição de clubes e jogadores, não havia a imprensa rápida a postar vídeos com golos e momentos quase imediatamente a estes acontecerem, não havia o folclore mediático que hoje verificamos… Era um conjunto de “não havias”, onde havia tudo o resto que interessa: o amor à camisola, o empenho, a garra, o suor… Falar do Eusébio jogador muitos falam. E muito bem.




Mas eu prefiro falar no Eusébio fora do campo que de forma nenhuma pode ser dissociado do Eusébio jogador. Isto porque o respeito que conquistou pela sua forma de estar enquanto jogador da bola, foi o mesmo respeito que lhe foi prestado depois de abandonar a carreira de futebolista. Aquela bola de trapos que começou a tratar por tu em Lourenço Marques onde desde cedo percebe a amargura e a dificuldade da vida, mesmo que se tratasse de um predestinado. Nem ele saberia que dali a uns anos viria a conquistar o trono, viria a ser só e apenas o melhor jogador português de todos os tempos: pelo que conquistou, pelo que deu a conquistar, pelo que ganhou, pela forma como ganhou e até como soube perder, o que foi raro mas aconteceu. Quem não se lembra dos famosos cumprimentos aos guarda-redes quando estes defendiam os seus remates quase teleguiados. Quem não se lembra das amizades cultivadas com os seus adversários dentro de campo. E é esta postura, esta forma de estar na vida que o distancia de muitos e que o coloca, como poucos, no galardão dos melhores. E Eusébio está lá por mérito próprio.





Fui a Lisboa neste Verão e porque me foi impossível acompanhar as cerimónias fúnebres presencialmente, fiz questão de ir ao cemitério onde jaz até que se cumpra o desejo de milhões de portugueses, benfiquistas mas não só, e seja levado até ao sítio onde repousam os melhores. Lá estava o seu túmulo, naquele sítio, no meio de tantos, junto ao do Zé, ao lado do do Manel, atrás do túmulo de uma Maria qualquer, entre o povo, de onde nunca saiu e fez sempre questão de estar. Está no alto do cemitério do Lumiar mas por puro acaso: não está distante, nem à parte, está ali entre centenas de homens e mulheres. É incrível ali chegar e perceber que um dos grandes atletas que este Mundo conheceu, jaz junto de cidadãos anónimos, num acto de pura simplicidade e humildade até na morte. E aqui se cumpriu o desígnio de Eusébio.


Flores que entreguei ao Rei Eusébio


Com 7 letras se escreve humilde, com 7 letras se escreve Eusébio. Duas palavras que jamais se dissociarão. Por todos nós, um povo tão diferente como as suas fintas, tão forte quanto os seus remates, tão batalhador como as suas longas corridas por esses campos fora. Por todos nós, portugueses, que jamais esqueceremos, a sua forma de estar na vida. Ele faz parte dos grandes, é uma lenda, como poucos o são e virão a ser. É dos bons e é português. Orgulhemo-nos. E é por isso que gosto de Eusébio. 


Urna de Eusébio no centro do relvado da Luz

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Que Natal queremos ter, afinal?



Chegámos ao Natal. Muitos já sabem as promoções para esta altura do ano. Muitos de nós já sabem que naquele sítio há aquele artigo com grande desconto. A maioria de nós já sabe que aquela prenda  é para  aquela pessoa. Já sabemos sempre tudo, ou achamos que sabemos.

Não sabemos nada. Nada. Sabemos o que nos impingem, sabemos o que querem que nós saibamos. O poder da publicidade é enorme: a televisão, os jornais, a rádio contribuem para que a publicidade seja para promover o  lado mais fútil da vida. Serve para nos mostrar aquela prenda, aquele produto, aquela coisa que um dia se esgota e cujo valor que damos tantas e tantas vezes é momentâneo e termina no lixo pouco tempo depois de o usarmos. Só há uma coisa que todos podemos tornar eterna: a solidariedade. E mais outra: a bondade. E outra: a generosidade. E por fim outra: o amor ao próximo. E é disto que se faz o Natal. É disto e de nada mais. Natal é sabermos que os nossos estão bem e fazermos tudo para que aquele ou aquela que até nem nos pertence esteja bem e tenha um Natal digno.

Presentear alguém é um acto nobre, ninguém discute isso. Mas esta crise que parece eterna podia servir para oferecer-mos uns aos outros novos presentes, prendas recheadas de profundos e fortes sentimentos próprios de seres humanos que insistem em dizer que somos.


E isto não se aplica a nenhum grupo em especial. Isto é para todos nós. É para nós que tantas vezes nos esquecemos de que há vida para além da nossa. É para nós quee tantas vezes optamos por não ajudar aquela pessoa só porque é diferente de nós, só porque nasceu naquele país que continuamos a tratar como inferior, só porque cresceu numa família que foge ao comum, só porque nasceu naquela etnia, só porque tem outra cor, outra idade, outra religião e por aí em diante. Talvez seja por isso que seja notícia todos os dias variadas tragédias: crianças a sofrer violência física e psicológica nas nossas escolas, jovens que querem desistir, idosos cada vez mais sós, tantas vezes agredidos verbal e fisicamente. Ora Natal é integração, é solidariedade franca e genuína, é amor ao próximo tudo o que foge a isto não passa de uma máscar daquulo que o ser humano poderia e deveria ser.

José Saramago escreveu um dia: "Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo o dia." Pois bem o coração de um ser humano vigilante também é de carne e sangra com a dor com que todos os dias nos confrontamos a precisarmos daquele gesto, daquela palavra, daquela atenção.
Natal é isto: é olharmos para cada um enquanto nosso semelhante independentemente de tudo o que nos distingue. Errar todos erramos, podemos é tentar melhorar a cada dia que passa.  Vamos tentar?
Um santo e feliz Natal para todos!

(Texto publicado na edição nº 14 do jornal OrgenSempre de Dezembro de 2014)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Perdoo-te mas tenho saudades, avô

Há precisamente 3 anos partiste. Eram 18:30h quando recebi uma chamada a comunicar a tua viagem. Não consegui acreditar. Achamos sempre que estamos preparados para que isso um dia venha a acontecer. Somos sempre fortes e garantimos a toda a gente que estamos já há espera, que mais dia menos dia isso pode acontecer, tentamos mostrar e convencer-mo-nos (sobretudo isso) de que a morte é uma coisa certa e que todos nascemos e necessariamente todos iremos morrer. É uma ideia pré concebida tal como outras que nos incutem. Mas esta faz parte do conjunto das ideias que servem para atenuar algo que não é passível de ser atenuado. Porque sendo inevitável, custa, dói, magoa, fere, mata-nos um pouco. Parte de nós vai com quem partiu. Comigo, avô, foi exactamente assim. Mas ganhei outra coisa: ganhei força, sim, a tua força. Sou hoje alguém mais forte, mais convicto, mais certo do que sou e do que quero ser. Tal como tu. Exactamente como tu. Sou divertido, ganhei de ti esta forma alegre de estar na vida. Sou também triste, tenho umas belas "trovoadas", herdei isso também de ti. Sem a tua presença, é claro que perdi mais coisas: perdi a base da família. O destino não me permitiu conhecer a avó, essa mulher lutadora, forte, pilar da família, que tu amaste à tua maneira. Ela sabia-o e perdoava-te algumas falhas naturais de uma relação. Consigo lembrar-te nos melhores e nos piores momentos. Sei exactamente o que dirias nesta ou naquela situação. Lidavas bem com a vida. Via-te poucas vezes, ultimamente. Mas tinhas orgulho em mim e no que estava a tentar fazer por mim. Admiravas-te da vida que levava na capital, ficavas contente por saberes que todos os dias eu via a Catedral, o estádio do clube que tu não gostavas mas que até suportavas por ser o meu. Ficavas espantado porque eu dominava o mapa do metro e eu tentava explicar-te que no teu tempo era uma coisa bem mais complexa, porque era novidade. Hoje é tudo mais simples. Não compreendias. Talvez quisesses dar-me os louros dessa (suposta) conquista.



Contigo aprendi que a vida é muito mais que dinheiro, é importante estar cá e aproveitar cada segundo. Ligar o rádio e pô-lo em altos berros só para ouvir o teu Marceneiro, a minha Amália, os nossos ranchos folclóricos e até o Roberto Carlos que a mãe adora. Sei que hoje estás aí a olhar para mim. Deves saber que estas datas são estupidamente tristes. Não quero lembrar do que senti quando te vi deitado, gélido, na cama. Não consegui tocar-te. Preferi lembrar as nossas sardinhadas, o jogo da sardinha que tu perdias e dizias que tinha sido eu a levantar as mãos primeiro. Recordo de ti uma imensa coragem. Cegaste e durante mais de uma década viveste desse modo. Aceitando um qualquer desígnio de Deus, da vida, do destino. Herdei também essa força de ti. Sim, essa tua força de aceitares e nunca desistires para, dentro dessa condição, seres feliz. E foste-o. Nunca me esquecerei do teu sorriso. Mas não te vou perdoar teres-te ido assim. Na véspera tínhamos estado a falar ao telemóvel. Eu sabia que tu querias vir cá acima passar o Natal, ouviste-me e reconheceste-me. E sabes, hoje, que naquela altura já eram menos as pessoas que reconhecias, apenas pela voz. A velhice estava a atrapalhar-te. Mas naquele momento sabias que era eu. E disseste que vinhas, avô, tu disseste. E não vieste. Hoje, ainda hoje não te perdoo esta partida. Foste viajar e deixaste-me assim, sem um até já. Mas outra força diz-me que te tenho que perdoar. A tua vida aqui, onde todos estamos a padecer porque esperamos o que nos contam e suplicam para esperar, estava a ser bastante dolorosa. Eu sei, e por isso perdoo-te. 


Lamento que hoje não estejas aqui, mas sei que aí onde estás vais-me sempre guiar. Até ao fim da minha vida. Que pode ser hoje, amanhã ou depois. E sei também que tinhas este lema: vive a tua vida. Eu vivo-a. E tenho noção de que vou deixar pegada, sei que tentei marcar a minha presença. Tal como tu fizeste com a tua própria vida. Não encares isto como um bilhete ou carta de despedida. É uma homenagem, Já a merecias. 

Serás sempre o meu avô, Apesar de todas as nossas falhas, fomos sempre mais fortes do que elas. Por isso é que a nossa ligação consegue fintar e ser mais forte que a tua viagem definitiva. Sei que um dia vamos estar de novo juntos. E aí vais-me explicar porque me deixaste assim, sem te poder dizer um adeus. 

Até lá, fico por cá, a lembrar-te. Adoro-te.

(12.12.2013)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A crise e o regime de colaboração casaram. Foste convidado/a?



- Crise, aceita o regime de colaboração como seu legítimo esposo, e promete amá-lo e respeitá-lo mesmo quando um licenciado estúpido se aproximar de vós e pedir que o vosso casamento acabe até que algum governante decente agarre nisto tudo e ponha as pessoas a receber condignamente e os verdadeiros responsáveis no devido lugar?


- Regime de colaboração, aceita a crise como sua legítima esposa e promete amá-la e respeitá-la até porque se não o fizeres nunca te vais safar porque é ela que te faz sobreviver. Prometes manter-te fiel até que já não haja jovens neste país ou porque saíram daqui ou porque desistiram de viver?




Foi assim. Já estão casados e quem foi convidado sabe bem quão linda foi a cerimónia: do lote de convidados só se avistavam governantes, grandes empresários, patrões, sindicalistas pouco preocupados com quem “trabalha”, banqueiros, gente que manda neste país, políticos em geral, deputados em particular. Este casamento continua a matar a criatividade, o mérito, a capacidade de ir mais longe. E perdura graças à vergonhosa legislação laboral e ao evidente não proteccionismo que os jovens licenciados vivem neste país. 

Quem foi convidado a participar neste casamento sabe que crise e regime de colaboração é claramente um casamento de conveniência. À crise convém o regime de colaboração porque dele resulta a justificação para muito patrão dizer que não há dinheiro  e que só pode oferecer trabalho exigindo a quem o aceita que se ofereça literalmente, já que a relação laboral é feita a troco de nada ou de quase nada. Ao regime de colaboração convém a crise porque é nela que ele ganhou ainda mais notoriedade e visibilidade, sente-se importante e famoso. 

Casamento perfeito. Palmas. Arroz. E foram felizes para sempre.

PS: A meio da cerimónia perguntou-se se alguém tinha alguma coisa a dizer contra este casamento ou então que se fizesse silêncio para sempre. 
Se queres que este casamento acabe faz ouvir a tua voz ou cala-te para sempre. Assina esta petição para que a voz de quem está nesta situação seja ouvida. Assina para que se acabe com a vergonha dos estágios gratuitos.  http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=BarnabeSousa

Podemos ao menos tentar?

Lembra-te que quando quiseres que te defendam já só restarás tu se continuares com a postura de não te preocupares com nada à tua volta. Queres que isto continue? Deixa correr a cerimónia. Não queres? Levanta-te e grita, revolta-te!

O futuro é nosso. Acordai!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Sobre praxes e afins: escondam-se, sff

Viseu, todos nos orgulhamos é a melhor cidade para viver. Como decorreu a eleição, não sei, há quem diga que pouco interessa, há quem releve muito. Eu estou no meio. Não dou tanta importância quanto isso mas puxo disto quando me estão a deitar para baixo por ter sotaque beirão. 

Ora Viseu que é belíssima pelos enormes, verdes e floridos jardins tem, nesta altura do ano, que conviver com uns destrói paisagens que andam, caminham, emanam barulho, algum deste barulho cheio de grosserias a lembrar outros tempos, enfim, perturbam esta beleza que nos colocou no top das mais belas cidades para viver. 


Chamam-lhe praxistas e praxados. Eu diria que é gente que dá pouco uso ao cérebro. Sobre praxes já disse muito, se calhar mais do que devia, já batalhei muito contra estes episódios, por vezes mais do que a razão permitiria, já me mostrei acerrimamente contra. E continuarei a sê-lo. 


Mas como gosto de dar soluções, cá vai uma. Isto das praxes, para além de um atentado à dignidade humana para com os praxados, é uma violação do espaço público para todos os que têm que levar com isto. É que as praxes não se ficam pelas universidades: pois, elas próprias (finalmente!) começaram a perceber que nada disto é útil, nada disto é razoável, nada disto eleva o espírito universitário e muito menos brota dali um fruto iluminista de um pensamento próprio que devia fazer jus ao ensino superior. Nada disto ali está. E então, não se contentando em humilhar gente junto e dentro das faculdades, a malta sai e passeia-se. 

O cenário vi-o mesmo agora: malta com bata preta a ordenar coisas a um conjunto de outros seres humanos (quer dizer, os primeiros não pertencem na maior parte dos casos a esse lote tão nobre, enquanto praticam estas porcarias, para não usar a palavra do Luís Pedro Nunes e gerar polémica, mais polémica), que baixam a cabeça, submetem-se, não esboçam um sorriso, ficam por ali a tentar olhar para o chão, encontrando nele a solução para que o tempo passe mais rápido. É que lhes impingiram na maior parte dos casos que esta tradição faz sentido, esta tradição merece continuar, esta tradição enobrece a malta. E numa coisa a praxe cultiva os caloiros: é que eles apreendem claramente o traçado da calçada portuguesa. Palmas à praxe e a quem praxa. Removo já aqui, o que disse (esbofeteio-me nesta altura..): que a praxe não é cultura. Nada disso. Uma tradição que coloca caloiros a vislumbrar, apreciar, quiçá idealizar novos traçados para a calçada portuguesa merece efectivamente continuar. 


No entanto eu não preciso de saber que a calçada portuguesa está a ser valorizada. É que por sinal eu nem gosto muito da dita pedra organizada. Então fica aqui uma sugestão: em primeiro lugar falem mais baixo e adaptem os termos que mandam os caloiros gritar. Sim, mandam e sim, eles gritam. Podem sempre tornar menos grotesco o vocabulário, ajudava. Pronto já ficava melhor. Mas bom bom era taparem-se tipo como no circo: agarravam num pano (e podiam escolher a cor e tudo!!) "embrulhavam" o caloiro, seguravam o pano em cima para ficar bem escondido e o dito caloiro ficava lá dentro com um praxista e lá lhe dizia tudo o que queria e ele teria que repetir tudo (tudo como já é feito). Vêem... afinal eu sou sensível à tradição!! Tanta gente a dizer mal de mim. E o resultado final era exactamente como no circo: depois de abanado o pano, no fim de tudo surgiam não um amestrado e um "mestre" mas dois mestres prontos a amestrar outro coitado. 

Fica combinado? 
Façam-nos um favor da próxima: escondam-se!


domingo, 5 de outubro de 2014

Porque gosto de: Amália Rodrigues (II)


O primeiro texto foi dedicado à mulher mais importante da minha vida. Este segundo texto é dedicado à mulher portuguesa mais importante de todos os tempos. Quis o destino que se chamasse Amália da Piedade Rodrigues, quis o destino que um dia fizesse do destino uma canção. Amália estava destinada a cantar o destino, o fado, a saudade, a angústia, a tristeza. Ela que tanto bebeu desses sentimentos para que o seu perfeito coração continuasse a bater. Mas vamos por partes.

Gostar de Amália é gostar de Portugal. Ponto final. Nem vou entrar pelos prémios que com a nossa bandeira aos ombros foi conquistando. Amália foi a bandeira de Portugal durante anos a fio e negar isso é ser hipócrita, é mentir, é aldrabar a história. Num tempo de um Portugal triste, cinzentão, obscuro, num tempo de um Portugal zangado com os portugueses, era Amália a única a puxar por todos nós com aquela voz que um dia Deus decidiu dar-lhe.


Gostar de Amália é ver nela um exemplo de mulher. Amália tinha a elegância de todas as rainhas e princesas que Portugal conheceu. Era humilde como qualquer elemento de um povo que lavava no rio para tentar afogar as mágoas. Era cultíssima, instruiu-se. Foi artista multifacetada como só três grandes ícones (a contar consigo) conseguiram ser: Callas e Sinatra.  Amália por isso é imortal.


É frase dela: Quando eu morrer façam o favor de chorar por mim. Querida Amália, chorar por si não é um favor, nem somente um pedido. É uma ordem. Este povo tem que chorar por si. Chorar, aqui, é claramente no sentido figurado. Amália até nisto era brilhante. Chorar por Amália é ouvir a Lágrima e sentir naquela voz um desejo incrível de continuar a viver um amor impossível. É ouvir a Gaivota e sentir que cada letra, cada palavra nos revela o lado tão português que todos temos inevitavelmente. É ouvir o Estranha forma de Vida e sentir que ali está Amália na sua plenitude. Por mais anos que passem aquele "Foi por vontade de Deus" nunca será tão intenso como o de Amália Rodrigues. E chorar, chorar com estes fados, sentido neles a Diva. Amália era brilhante mas sobretudo simples. É frase dela também que ser simples é complicado. É esta multiplicidade de sensações que tornam Amália única.


Dizia Amália, que o fado não se canta, acontece. O fado sente-se, não se compreende, nem se explica. Disse também, e agora perdoe-se-me não conseguir citar absolutamente a frase, que tinha ttrês formas de cantar: cantava mal, cantava assim assim e cantava como podia. Nunca se achou a melhor de todos. É esta humildade sincera que fez dela a maior de todos. É só a melhor e vai continuar a sê-lo. Todos sabemos que cantou poetas (os mais importantes), cantou folclore, cantou música popular, cantou poetas revolucionários. Mas Amália não cantou apenas fado. Amália sentiu-o como ninguém porque ela era o Fado. Amália sentia-se só e bebia dessa energia da solidão para continuar a viver. Da solidão e da saudade, do saudosismo puro. Só assim se explica a letra do Lavava no Rio Lavava com o desejo de ter fome só para sentir o que sentia.



É isto, é isto que a torna magnífica. Amália era portuguesa, portuguesa como quem lê este texto, era de Portugal como quem escreveu este texto.  E eu continuarei tal como sempre fui: Amaliano convicto. É que isto de gostar de Amália não se aprende (em minha casa não se ouvia fado, fui eu que por mim comecei a venerar esta canção tão nossa), não se explica (por muito que transponha em palavras), apenas se sente. Por isto e por muito mais, por mais anos que passem:


Obrigado, Maior de todos nós. 
Obrigado, Amália Rodrigues. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

(I) - Por que gosto de ti, mãe

Ó mãe, quem melhor para eu elogiar neste primeiro “Por que gosto de…” do que tu. Deixar-te para último era uma injustiça até porque já lá vão 60 figuras de que gosto especialmente e a lista ia alargar-se e o teu texto haveria de ter que aparecer lá no meio dos outros. Ia perder significado.

Falar da minha mãe é das coisas mais complicadas que me podem pedir mas o desafio desta nova rubrica no blogue também não é fácil, de modo que vamos lá começar com a mais difícil. A minha mãe é a pessoa que mais amo neste mundo. Podem dizer-me que quase todos dizem isso relativamente às suas mães. Sim, verdade. Até porque mãe é mais do que quem dá à luz alguém. Mãe é quem está, quem ri contigo, chora por ti, é quem te incentiva, quem te motiva, quem está sempre certa numa sabedoria que à primeira vista não consegues alcançar mas um dia vens a perceber. É como aquela história: o não da tua mãe já te livrou de muitas situações complicadas e tu nem fazes ideia disso. 


Sei que não sou a imagem e semelhança de um filho perfeito. Como se a perfeição fosse atingível. Só Deus o consegue ser. Não sou perfeito. Como todas as mães criaste expectativas sobre mim que por vezes não consegui satisfazer. Desiludi-te muitas vezes. Sei que não fui bom filho em muitas situações mas tentei, juro que tentei. E quando foi preciso tu lá estiveste. Incentivaste-me na minha ida até Lisboa estudar mesmo que soubesses que te ia custar, que nos ia custar. A distância, a saída de casa, o não estar ali 24 horas sobre 24 horas. Mas ultrapassámos. Agora chegou outro desafio que também vamos ultrapassar. E a vida de filho e mãe é esta: batalhar, batalhar, batalhar. Sei que vamos conseguir ultrapassar este e outros desafios que a vida nos colocou. Porque soubemos ultrapassar o maior: soubemos sempre viver até aqui um para o outro, numa relação de pertença, não apenas pelo sangue que obviamente nos une, mas pela ligação mágica que uma mãe e um filho constroem. E esse foi o teu mais importante gesto heroico: fizeste de mim um homem, criaste-me, sempre com inúmeras dificuldades. Mas cá estou. Cá estamos. Devo-te isso e vou dever-te sempre isso. A coragem de criares um filho sozinha. És a maior, vais sempre ser.

Somos completamente diferentes, temos visões do mundo muitas vezes diametralmente opostas. Mas mãe e filho só têm que coincidir numa coisa que ajuda a tornar as outras todas autênticos “peanuts”: amor incondicional mútuo. E nisto, mãe, somos o ícone máximo. Correu sempre tudo bem? Não, nem podia, não ia ter graça. Houve dificuldades? Houve, e ainda bem que houve porque te tornaste a mais importante pessoa da vida de um ser humano: eu. Houve momentos maus? Claro que sim, mas soubeste fintá-los num acto de verdadeiro heroísmo. E depois de tudo isto, vieram os momentos mais felizes. E virão muitos mais.

Se tenho medo que chegue o dia que vais partir? Sim, tenho. Tenho muito. Quem nos vê na rua sabe que te costumo ajudar a caminhar para evitar que caias. Tenho receio que no céu, o tal sítio que nos contam ser belo, lindo, magnífico, espectacular, não te saibam acolher como mereces. Tenho medo que o chão do céu tenha lá alguns obstáculos que não merecias ter que ultrapassar. Tenho medo que caias por lá e eu não esteja lá para te puxar para cima, para te agarrar e dizer, “Calma, mãe, foi só uma queda pequenina, já ficas bem” ou então “Ó mãe, caiste mas já passou, vamos lá, eu ajudo-te a levantar”. Tenho esse medo, o que queres que faça?



É que isto de ter medo é uma coisa natural. Como natural e pura é a relação maternal. Sobretudo quando sei que fizeste tudo para eu hoje estar aqui. 
É que há mães, há excelentes mães e depois existes tu: a melhor.